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A ansiedade das escolhas!

Postado em 03 de fevereiro de 2012 às 17:15

"OK, então vamos esperar por sua escolha até amanhã de manhã. Pense bem antes de decidir."

A frase soou como uma ameaça. Eu tinha que decidir e não podia negar essa responsabilidade, já que corria o risco de perder tudo. Mas a escolha não era simples, pois, no fundo eu queria os dois. Um representava a liberdade, a aventura, a alegria de viver. O outro significava a sabedoria, o conhecimento, o futuro. Como escolher entre dois conjuntos de valores tão importantes? Como optar por um e abrir mão do outro que eu também queria tanto? Por que o destino estava fazendo isso comigo? Ó mundo cruel...

Mas não teve jeito, pois eu sabia que, se demorasse para decidir, ou não mostrasse firmeza em minha conclusão, não seria considerado maduro o suficiente para merecer nenhum dos dois. Acabaria tendo que me contentar com algum prêmio de consolação, e isso seria a pior coisa que poderia me acontecer naquela fase da vida. Então, armado de uma convicção artificial, comuniquei minha decisão:

- Então está bem, fico com a bicicleta! - e abri mão da enciclopédia.

Estávamos em véspera de Natal e eu tinha 11 anos. O que aconteceu naquela oportunidade foi uma espécie de iniciação à vida, que nada mais é que uma sucessão de escolhas. Parece que a única escolha que não fizemos foi a de nascer, porque daí para a frente, passada a primeira infância, começa nossa preparação para sermos responsáveis. Tem início o desenvolvimento de algo chamado "consciência", que, em última análise, é a autonomia para cuidar do destino, escolhendo os caminhos da vida. Amadurecer, descobri, é assumir a responsabilidade por suas escolhas.

Eu queria muito aquela bicicleta. Qual é o garoto que não quer? Desejava sair por aí, com os colegas ou mesmo sozinho, deslocando-me com rapidez, sentindo o vento, conhecendo outros bairros da cidade. Mas também estava de olho na tal enciclopédia, que, para mim, era uma espécie de passaporte para o conhecimento. Com a bicicleta, poderia passear pela cidade - pensava -, e com a enciclopédia, poderia viajar pelo mundo.

Prevaleceu a liberdade do vento, não a das letras, como seria de esperar de alguém que mal encerrava a primeira década de vida. E aquela bicicleta me deu muita alegria, acredite. Nunca me arrependi da escolha, até porque mais tarde, em outro Natal, a enciclopédia veio, ainda que não tenha vindo o aparelho de som - outra escolha/troca.

A tirania do"ou"

Um dos personagens mais explorados pela literatura alemã é o de um homem que fez uma escolha perigosa: Fausto. Ele foi inspirado em uma pessoa real, o médico Johannes Georg Faust, que viveu entre 1480 e 1540 e que era também estudioso de alquimia e magia. Sempre insatisfeito com o conhecimento disponível, ansioso por saber mais, acabou por dar origem a Fausto, que teve inúmeras interpretações na literatura germânica, sendo que a que predomina é a do mais importante escritor alemão, Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832).

A primeira parte da versão de Goethe foi publicada em 1806 e conta que Fausto, querendo superar os conhecimentos disponíveis na época, ambicioso pelo saber, acabou fazendo um pacto com um demônio, Mefistófeles. Durante 24 anos ele não envelheceria, experimentaria todos os prazeres e teria acesso a conhecimentos novos. Tudo isso em troca de sua alma, que passaria a ser posse do maléfico pela eternidade.
Fausto aceita, pois seu desejo de saber é superior a tudo. O que ele não contava é que se apaixonaria por Margarida e, ao se ver perto de seu prazo, vê-se também obrigado a abandoná-la. O mito fáustico, em todas as versões, joga com a ideia da perda como subproduto da escolha. E essa perda pode ser desesperante, como no caso do personagem, ou pode ser, em sua versão mais humana, no mínimo, a causa de grandes ansiedades.

A ansiedade é, sim, um dos males da modernidade. Não há pessoa que não relate que é acometida, eventualmente, por uma "crise de ansiedade", caracterizada pela sensação de dúvida, incerteza, desconforto. A pessoa ansiosa gostaria de não estar onde está, ou pelo menos gostaria de não estar vivendo a situação que lhe causa ansiedade - mas, por outro lado, sabe que não tem como evitar. Todos somos ansiosos, em graus maiores ou menores.

E a causa mais comum de geração de ansiedade atualmente é, como vimos, a necessidade de fazermos escolhas. Sim, pois a cada escolha você tem que sofrer com as renúncias que ela acarreta. Essa é a tragédia da escolha. O imperativo do "ou". Ou isto ou aquilo, os dois não dá, explica a vida - e a gente aceita com resignação.

Escolher é trocar

A língua inglesa tem uma expressão que define bem a ansiedade da escolha: trade-off. Sem tradução literal, trade-off significa escolha, mas também quer dizer troca. Em síntese, escolher significa trocar uma coisa por outra. Ao escolher a bicicleta, abri mão da enciclopédia. Foi uma troca e, convenhamos, a melhor que podia ter feito naquela ocasião. No ano seguinte, troquei um aparelho de som novinho pela coleção de livros que esperei por um ano. E por aí vai.

Trade-off é uma expressão muito usada nas empresas, e faz parte do planejamento estratégico. Os empresários e executivos sabem que sempre há um preço a pagar. Por resultados, terão que fazer investimentos. Se buscarem inovação, terão que admitir alguns erros. Se optarem por economizar, terão que reduzir os investimentos. Na economia do país, se a opção for pelo controle da inflação, sabe-se que a taxa de crescimento será menor. "Não há almoço grátis", dizem os economistas. Trata-se de um postulado da economia que lança mão da obviedade que não dá para, ao mesmo tempo, comer a refeição e ficar com o dinheiro.

Um dos melhores exemplos de trade-off estratégico é encontrado não na economia, mas no jogo de xadrez - e, nesse caso, pode receber o nome de gambito, que não é, portanto, apenas o codinome das pernas finas.

Nesse jogo, gambito é o sacrifício de uma peça em troca de alguma vantagem, que pode ser outra peça ou espaço, desguarnecimento do adversário, linhas diagonais ou simplesmente tempo. O outro jogador pode aceitar ou refutar a oferta, pois sabe que há uma intenção por trás, uma espécie de jogada oculta. O Gambito do Rei é uma jogada em que o jogador de peças brancas oferece um peão logo no início do jogo e, aparentemente, desprotege o rei, mas, na prática, obtém uma liberdade de ações bem maior a partir disso, ganhando o domínio que vem da iniciativa. Tanto essa jogada quanto o Gambito da Dama são estratégias de quem sabe jogar e não de iniciantes sem técnica nem equilíbrio emocional.

Na vida também é assim, mas é claro que há variações importantes. Todos os dias fazemos escolhas soft, cujos enganos não provocarão maiores consequências. Se você errar no prato no restaurante ou no filme na locadora, ou se escolher uma roupa leve num dia em que faz frio, tudo bem, a encrenca não é tão grande assim. O complicado é errar nas escolhas hard, como a profissão, os investimentos ou a pessoa com quem se casar e compartilhar a vida. Felizmente, fazemos mais escolhas soft do que hard neste passeio pela vida.

A possibilidade do "e"

Mas nem tudo está perdido. Disse Einstein que nós não podemos resolver um problema usando o mesmo estado mental que o criou. É necessário buscar novas possibilidades, aceitar a existência de caminhos não vistos no primeiro olhar. E, nessa busca, sempre podemos contar com a possibilidade do "e" em vez do "ou". A inclusão como alternativa à exclusão.

Nem sempre dá, mas não podemos descartar essa possibilidade, e até contar com ela. Aliás, há situações em que essa é a única saída. Voltando a falar dos economistas e dos pensadores no futuro da sociedade humana, há um tema que gera muita polêmica. Trata-se da disputa entre crescimento da economia e a sustentabilidade do planeta.

Os que pregam o crescimento econômico são acusados pelos ambientalistas de não se preocuparem com a sustentabilidade do planeta, e estes são chamados por aqueles de patrocinadores do atraso. Durma-se com um barulho desses. Felizmente existem cérebros atuantes, cientistas, estadistas, pensadores que afirmam ser possível promover desenvolvimento protegendo a natureza. Desenvolvimento com sustentabilidade. Geração de riqueza e preservação do meio ambiente.

Para isso, claro, temos que falar de coisas novas, como reflorestamento, reciclagem, eficiência, novos materiais, pesquisa pura e aplicada, consumo consciente. Novos modelos mentais. Como se vê, fazer a opção pelo "e" requer investimento, tempo e inteligência. É mais fácil escolher um, ignorar o outro e tentar dormir tranquilo.

A inclusão é a solução ideal, quando possível. Senão, é necessário escolher e arcar com todas as consequências que fazem parte do pacote. O direito de escolher é atributo do mundo livre, o que é muito bom, claro. Nos países totalitários, em que ditadores comandam tudo com mão de ferro, a população não tem que fazer muitas escolhas, porque o estado faz por elas.

Viver com liberdade aumenta a responsabilidade e a ansiedade, mas viver sem ela aumenta o sentimento de impotência e o resultado pode ser a tristeza e a depressão. Sinceramente, se esse é o preço, fico com a ansiedade. E viva a liberdade de escolha.

* Eugenio Mussak não se arrepende de ter optado pela bicicleta e não pela enciclopédia

 

Fonte: Site Revista Vida Simples                                       Imagem: Internet

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O poder das nossas crenças!

Postado em 11 de novembro de 2011 às 08:39

Detectar as maneiras negativas de agir é o primeiro passo para reformularmos o jeito de nos relacionar com o mundo.
 

Ao longo da vida, acumulamos certezas que nem sempre correspondem à realidade, o que, segundo especialistas, acaba limitando o nosso desenvolvimento emocional. Quer um exemplo? Imagine que a sua campainha está tocando. Você abre a porta e se surpreende com um buquê de flores na mão do seu amado. Então, você pensa: "Nossa, como ele me ama" ou "Por que ele está fazendo isto? Ele deve ter feito alguma coisa errada...". Esse simples exemplo mostra como o mesmo fato, dependendo do ponto de vista, pode suscitar diferentes leituras, cada qual atrelada a uma reação específica. Curioso, não é mesmo?

Para explicar isto, a edição de novembro da BONS FLUIDOS traz uma matéria que mostra que as nossas crenças têm, sim, poder nas nossas escolhas. "Lembre-se que crença é tudo aquilo em que acreditamos a partir da forma como 'lemos' a realidade", explica a terapeuta integrativa Kátia Bueno. Detectar as nossas crenças é o primeiro passo para reformularmos o jeito de nos relacionarmos com o mundo. Só assim podemos vencer limitações e bloqueios.

Conheça, a seguir, algumas crenças que mais prejudicam nosso crescimento pessoal:

· Fazer tempestade em copo d'água. Trocando em miúdos, dilatar as proporções dos problemas não traz nada de bom.

· Confiar cegamente nos sentimentos. Muitos se deixam levar pelos maus pressentimentos, sem averiguar se há alguma lógica por trás de tal posicionamento.

· Baixa tolerância às frustrações. Diante das contrariedades, sentimos raiva e ficamos presas à irracionalidade desse comportamento.

Reportagem Completa: Revista Bons Fluidos Novembro-2011

 

Fonte: Site Revista Bons Fluidos.                                                Imagem: Internet

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A falta que nos move!

Postado em 26 de agosto de 2011 às 00:46

Como lidar com a sensação de vazio, de necessidade e carência que boa parte de nós apresenta.

Numa entrevista recente, a atriz Isis Valverde desabafou: "Tenho um buraco enorme dentro de mim, uma falta que não consigo explicar ou preencher, e que está sempre presente em tudo o que faço". Como um pano de fundo, esse sentimento a acompanha em suas conquistas, projetos, relacionamentos. Às vezes fica encoberto, mas se há um pouco de silêncio interior, ele pode se manifestar claramente. E isso não acontece só com ela. O que Isis descreveu tão bem é algo que habita o coração de todos.

Essa quase indefinível sensação de necessidade e carência foi descrita pela filosofia, pela psicologia, pela literatura. Para alguns ela é intensa, para outros se apresenta menos profundamente e com mais raridade. Porém, uma vez ou outra na vida, nos encontramos com esse sentimento inequívoco de falta de algo que nem conseguimos definir direito o que é. "Na mitologia grega, a mãe de Eros, o desejo, é a Penúria, a falta. Sabiamente, os gregos colocavam a carência como a origem de tudo que desejamos na vida. Para eles, esse gosto de escassez, de insuficiência, de insatisfação é a grande faísca que dá partida às nossas ações, planos e sonhos", diz a professora de mitologia Helenice Hartmann.

Saber disso gera alívio. Muita gente não consegue identificar esse aperto no peito que nos angustia, e mal percebe que ele está ali presente, ou que sequer existe. Ao dar um nome para esse sentimento difuso, mas insistente, a vida pode se reorganizar de uma maneira diferente. Podemos reconhecer o que nos incomoda e, mais que isso, observar como essa falta primordial é capaz de conduzir, nem sempre de uma maneira mais sábia, a maioria dos nossos movimentos existenciais. Com base nessa nova consciência, é possível, então, uma regulação mais equilibrada de nossos desejos: já sabemos o que os origina, e assim podemos administrá-los melhor. Se admitimos que essa falta jamais será preenchida com as ilusões do universo material, ou mesmo emocional, vamos abrandar a fome com que nos atiramos às pessoas e às coisas. Dessa maneira, é possível nos contentarmos mais com a vida, e até nos alegrarmos e nos sentirmos gratos com o que já temos, pois atendemos a essa necessidade de outra forma. "Não se trata de suprimir o desejo, mas de transformá- lo: de desejar um pouco menos aquilo que nos falta e um pouco mais aquilo que temos; de desejar um pouco menos o que não depende de nós e um pouco mais aquilo que de fato depende", sugere o filósofo francês contemporâneo André Comte-Sponville. Sem dúvida, isso já é um ótimo começo.

A descoberta da falta

Saber que existe esse vazio interno pode se tornar uma descoberta fascinante. Tanto que ela é capaz de tocar vários autores. A diretora carioca Christiane Jatahy fez uma peça teatral e, depois, um filme (A Falta Que nos Move) que fala dessa necessidade primordial do ser. Para realizá-los, uma de suas fontes de inspiração foi o filósofo alemão do século 19 Arthur Schopenhauer. Segundo ele, o sentimento de ausência é o movimento precursor da busca que o ser humano empreende em sua vida: a procura pela realização pessoal, pelo relacionamento com o outro e pela tão fugidia felicidade. "Todo desejo nasce de uma falta, de um estado ou condição que não nos satisfazem: portanto, enquanto não for satisfeito, ele é sofrimento", escreveu o pensador.

Outro que se aprofundou nesse tema no século 20, e que também influenciou a diretora Christiane Jatahy, foi o psicanalista francês Jacques Lacan. Ele afirmava que esse vazio primordial alimenta a procura do homem por sua própria verdade. Portanto, para Lacan, a falta não é, em si, negativa ou indesejável, mas o poderoso estopim de uma busca interna que pode se tornar reveladora. Para exemplificá-la, Christiane colocou em seu filme quatro atores que procuram tocar o sentimento de falta que mobiliza cada um deles. Como os personagens da peça teatral Esperando Godot, do irlandês Samuel Beckett, eles aguardam um convidado que nunca chega para jantar. A espera desnuda o vazio em que eles vivem, e a sensação de falta que modula suas esperanças e ilusões. Mas, se ela é bastante perceptível para quem assiste ao filme, os quatro parecem inconscientes dela a maior parte do tempo. Mais ou menos como acontece com todos nós.

Amar um pouco mais

A lógica é simples: se espero conseguir algo, é porque me falta alguma coisa, certo? Portanto, a esperança primordial, aquela que alicerça todas as outras esperanças que habitam nosso coração, é nossa vontade de conseguir preencher esse vazio que nos consome. Por isso mesmo, os estoicos desconfiavam muito dela. "Esperar um pouco menos, amar um pouco mais", propunha essa antiga corrente de filosofia da Grécia. Em outras palavras, mais ação e menos expectativas. Porque ao colocar o desejo de satisfação no futuro, nos deslocamos do presente e aumentamos nossa angústia. Para evitar isso, os estoicos adotavam uma medida prática: satisfaziam-se com o que tinham. Para eles, desejar mais do que o momento proporciona era garantia de infelicidade. Contrariando o senso comum, que diz que "não se pode viver sem esperança", eles a consideravam a maior das adversidades. "Porque ela é, por natureza, da mesma ordem da falta, da tensão insaciada. Vivemos continuamente na dimensão do projeto, correndo atrás de objetos colocados num futuro mais ou menos distante, e pensamos, ilusão suprema, que nossa felicidade depende da realização concreta de fins medíocres, ou grandiosos, pouco importa, que estabelecemos para nós mesmos", escreveu com sabedoria o educador e pensador francês Luc Ferry no livro Aprendendo a Viver (Editora Objetiva).

E há outro bom motivo para não se depender da esperança da satisfação de um desejo: assim que o realizamos, outro buraco se forma, outra falta, que exigirá o seu preenchimento. "Assim que um objetivo é alcançado, temos quase sempre a experiência dolorosa da indiferença, ou mesmo da decepção", continua Luc Ferry. "Como crianças que se desinteressam do brinquedo no dia seguinte ao Natal, a posse de bens tão desejados não nos torna nem melhores nem mais felizes do que antes". Nada se modifica e enquanto se espera viver, a vida passa. "Nenhuma satisfação é duradoura: ao contrário, ela é ponto de partida para novos desejos. Em todo lugar vemos desejos sendo frustrados e impedidos de se realizar, de diversas maneiras; por toda a parte vemos pessoas lutando por eles, e assim eles sempre aparecem como sofrimento. Não há término para o esforço, não há medida e não há fim para o sofrimento", afirmava Schopenhauer. "I can get no satisfaction", portanto, não é apenas o grito de Mick Jagger, mas o de todos nós.

Viver entre a esperança de ter, ou ser, e o medo de não ter, ou de não ser, pode se tornar outra forma de tortura. "O medo é a face complementar da esperança. Temos esperança porque, no fundo, temos medo de não ter nosso desejo satisfeito. Esperamos que ele se realize, mas temos medo de que ele não se realize", diz indo direto ao ponto a monja budista americana Pema Chödron. Em resumo, para não sofrer tanto com as expectativas, é necessário aceitar a vida como ela é, e reconciliar-e consigo mesmo. "É possível fazer planos, é claro, mas não depender disso para ser feliz. A felicidade está dentro de nós, e não fora, no outro, no futuro ou em outras circunstâncias", diz Pema. Ao constatar isso, já fica mais fácil nos livrarmos de outra forma de sofrimento ocasionado pela falta: a inveja.

Quem, eu?

Você e seu namorado não estão muito bem e sua melhor amiga intervém e... dá em cima dele. De uma parte, você já sabe o motivo por que aconteceu isso: inveja. Afinal, você falou para ela o quanto vocês cuidavam um do outro, os encontros apaixonados... Quem não iria espichar o olho? Além disso, ela não tinha uma relação satisfatória há tempos. Se você for um menino, pode adaptar o exemplo para o caso de um colega que está a fim do seu cargo, por exemplo, aquele que você treinou e a quem deu todas indicações para ocupar seu posto. Como, nos dois casos, a pessoa teve a coragem de trair sua confiança?

Simples. Ela se comparou a você e achou que tinha condições de ter o que você tinha. Além de inveja, a cobiça. O que você talvez ainda não saiba é que a inveja, a avareza, a luxúria, o orgulho, enfim, todos os pecados capitais, se ancoram no sentimento de falta. O raciocínio é esse: ou eu acho que tenho mais do que outro (orgulho e vaidade), ou não quero perder o que eu penso ter (avareza), ou desejo ter o que o outro tem e que eu não tenho (inveja, cobiça). E há uma razão para essa comparação. No caso da inveja, a sensação de incapacidade e de insatisfação gerada pela falta nos reduz a um tamanho interno bem pequeno. Julgamos não ter nada, não ser nada. E justamente por causa disso estamos sempre nos comparando (e competindo) com o próximo.

É uma triste condição. E ninguém está imune a ela. Toda vez que nos comparamos a alguém que admiramos e que nos sentimos insuficientes ou incapazes de ser ou ter o que essa pessoa é ou tem, entramos para o indesejável círculo dos 99. Você já ouviu falar? Vale a pena conhecer. Dizem que um rei triste contratou um bobo da corte muito feliz para alegrá-lo. Porém, mais do que rir, ele queria saber o que tornava o bobo tão feliz. Ele consultou os sábios da corte, que concluíram: o bobo era assim porque estava fora do círculo dos 99. Para exemplificar sua teoria, sugeriram que o rei deixasse na porta do bobo um saco com 99 moedas de ouro e o observasse escondido. Além disso, o monarca deveria deixar o seguinte bilhete: "Estas 100 moedas de ouro são suas. O tesouro é um prêmio por você ser um homem bom e feliz. Desfrute-o e não conte a ninguém onde o encontrou". O rei aceitou o desafio.

O bobo achou o presente e, sem acreditar no que via, começou a contar as moedas: 97, 98... 99! Faltava uma! Inconformado, contou de novo. "Que droga! Como assim?!?", perguntava a si mesmo. O rei via que, em vez de ficar contente por ter recebido as moedas, ele estava com uma expressão angustiada e tensa. Depois de recontar o dinheiro, o bobo começou a fazer planos de como conseguiria a última moeda, tarefa que iria consumir alguns anos e que o manteria insatisfeito e infeliz até realizá-la. Abismado, o rei presenciava como o menestrel acabava de entrar para o círculo dos 99, e assim iniciava sua vida de homem infeliz.

Toda vez que sentimos inveja, também entramos no círculo dos 99. Olhamos para o que achamos que nos falta, em vez de olhar para nossa completude. De novo o budismo pode nos ajudar a compreender essa questão. Segundo essa filosofia, já somos naturalmente seres iluminados, felizes e cheios de amor e compaixão. Porém, essa realidade está encoberta pela sensação de falta e pelos desejos que surgem por querer suprimi-la. "Nossa consciência é pura e boa. O único problema é que ficamos tão envolvidos com os altos e baixos da vida que não encontramos tempo para fazer uma pausa e observar o que já temos", diz o monge Mingyur Rinpoche em sua carta de despedida, antes de partir para um retiro de três anos nas montanhas do Nepal. "Não se esqueça de abrir espaço em sua vida para reconhecer sua natureza básica, para ver a pureza do seu ser e deixar que suas qualidades inatas de amor, compaixão e sabedoria possam surgir naturalmente", escreveu. É como se essa natureza primordial fosse uma pequena planta que, nutrida por práticas como a meditação ou a contemplação, se tornasse forte e florescesse, trazendo mais felicidade e satisfação para nossa vida.

Aqui começamos a vislumbrar a saída do problema: para preencher esse buraco existencial, não é preciso preenchê-lo, mas transcendê-lo. Seja com uma abordagem espiritual, seja com base no encontro com o outro. É o que vamos ver a seguir.

Superação da circunferência

Ao traçar num papel o círculo que representa um buraco, vemos que ele tem limite: a própria circunferência. O que nos separa da integração com um todo é justamente essa fronteira. "Nas antigas civilizações, como as do Oriente, o indivíduo sentia-se mais integrado a sua cultura, a seu universo. A noção de falta era menos presente e sentida porque toda uma estrutura o amparava em suas decisões, comportamentos e objetivos. Mas hoje, na modernidade, essa integralidade não mais existe. Vivemos uma cultura fragmentária e individualista", diz a psicanalista paulista Andrea Naccache, de formação lacaniana. "Por isso recorremos tanto ao Oriente: para tentar resgatar esse sentimento de integração de corpo, mente e espírito com o universo", diz ela. Mas o caminho também pode ser outro. "O que nos leva a ultrapassar a circunferência e transcendê-la é o outro. É ele que nos estimula a ultrapassar nossos limites e a fazer essa passagem. É dessa maneira que podemos ir além de tudo o que achamos que somos, ou do que acreditamos que podemos", diz a psicóloga.

Isso mesmo: a falta nos guia em direção a quem está em nossa volta. Porque é justamente entre as pessoas que está aquela que nos vai impulsionar. Seja um amigo (ou um inimigo...), seja o ser amado, um mestre, um livro escrito por alguém. "Assisti a um filme ontem, Homens de Honra, que conta a historia do primeiro mergulhador negro do Exército americano. Ele teve que superar limites fortes para conseguir fazer isso. E quem o estimulou a vencer essa luta foi o pai", conta Andrea. "Freud falou da falta como a perda de um objeto de amor primordial. Ele se concentrou na dinâmica do desejo, e em sua possível frustração. Hoje, a psicanálise se orienta para analisar formas de satisfação presentes. E o encontro com o outro nessa dinâmica é fundamental", diz ela. Não é à toa que num dos poemas mais intensos de Fernando Pessoa ("A Tabacaria"), o simples aceno do dono de uma loja consegue tirar do autor o sofrimento diante do vazio da vida. A salvação é motivada pela ação do outro.

Na metafísica, a resposta é semelhante. É a união com o Divino, ou com o estado primordial de amor e compaixão, que nos vai fazer superar a falta. É isso o que nos diz, por exemplo, Meister Eckhart, o grande místico medieval alemão: "Vede! Este homem permanece numa única e mesma luz com Deus: é por isso que não há nele nem sofrimento nem sucessão, mas uma igual eternidade (...) Ele permanece num agora que, em todo o tempo e sem cessar, é novo". Para Eckhart, nossa falta primordial é ontológica: é o desejo da alma de se unir a Deus, que, nesse caso, é um outro divino. "Essa semente (na alma) pode estar encoberta ou oculta, mas jamais aniquilada ou extinta. Ela é ardente, brilha, ilumina e queima, e tende sem cessar para Deus."

Assim, não precisamos de mais nada. Pois a falta primordial deixa de existir. "O sábio não tem mais nada a esperar ou a exigir", diz o filósofo André Comte-Sponville. "Como não precisa de nada, é inteiramente feliz." E o escritor francês Matthieu Ricard, em seu livro Felicidade (Editora Palas Athena), complementa a ideia: "Somos responsáveis pela escassez que nos aflige. Não nascemos sábios, nos tornamos". É a sabedoria, portanto, que nos ajuda a encontrar o bom caminho para transcender aquilo que nos falta.

 

Fonte: Site Revista Vida Simples.                                       Imagem: Internet

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Transtorno Obsessivo Compulsivo: manias sem fim.

Postado em 12 de agosto de 2011 às 08:15

De seis a dezessete anos. Esse é o tempo médio que uma pessoa com Transtorno Obsessivo Compulsivo, conhecido como TOC, demora para procurar ajuda. Pior que isso: boa parte daqueles que têm o problema sofre em silêncio, com receio e vergonha de expor suas manias ou compulsões e de não serem compreendidos. Manias das mais variadas: existem pessoas que só saem de casa depois de desligar o gás ou trancar todas as portas e verificar várias vezes; há aqueles que precisam dispor certos objetos simetricamente lado a lado, mesmo que a tarefa lhe consuma um bom tempo, e há ainda os que têm pavor de ser contaminados por algum micro-organismo poderoso, por isso lavam as mãos repetida e constantemente. Esses são apenas alguns exemplos. Em comum, todos sentem uma ansiedade atroz caso não executem determinada tarefa. É uma necessidade que se transforma em prisão, o que leva a muitos se isolarem em casa.

            Segundo dados da Harvard Medical School, cerca de 4% da população mundial sofre do transtorno, que atinge homens e mulheres em igual proporção. As manias são consideradas doenças levando-se em consideração a intensidade e a frequência de tais ações, quando passam a afetar a vida pessoal e profissional. É possível imaginar o quanto se torna complicada a convivência com alguém que passa horas a fio tomando banho; que precisa passar centenas de vezes ao longo do dia pela porta de seu quarto ou que tem a necessidade de limpar compulsivamente as maçanetas da casa ou suas mãos. Vale ressaltar: um artigo publicado no Journal of the American College of Cardiology revelou que a exposição crônica a tamanha ansiedade e a outros sentimentos a ela associados, como o medo, aumenta de 30 a 40% o risco de infarto.

            Apesar da ciência estudar os motivos pelos quais alguém desenvolve o TOC, ainda não há uma causa estabelecida. Acredita-se apenas que são vários os fatores que levam à doença. Por exemplo, a hereditária tem sua parcela de contribuição, já que é comum encontrar pessoas de uma mesma família com o problema. Situações de estresse; fatores neurobioquímicos; infecção por estreptococos; alterações hormonais durante a gravidez ou após o parto também podem contribuir para desencadear a doença. Sabe-se também que até mesmo crianças podem desenvolver o transtorno. E que, se diagnosticadas e tratadas precocemente, o risco de recaídas diminui muito na fase adulta.

 Isso porque esse é um tipo de transtorno que demanda atenção durante toda a vida. É difícil falar em cura, mas, sim, em controle. O tratamento, aliás, é feito em duas frentes: por meio de psicoterapia e pelo uso de medicamentos que regulam a atividade de neurotransmissores, como serotonina, noradrenalina e dopamina, responsáveis, dentre outras coisas, pela regulação do humor e também do apetite. A prática de uma atividade física também ajuda, já que auxilia na redução da ansiedade. Esse conjunto de medidas tem um efeito libertador para a maior parte dos pacientes, já que podem, finalmente, experimentar a vida com menos amarras.        

           

Fonte: Adaptação do Informativo “Dislexia: quando as palavras não fazem sentido”, Página Einstein (www.einstein.br).

Imagem: Internet

Texto sugerido pela psicóloga Ilana Souza do Espaço Vida & Saúde

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Dislexia: quando as palavras não fazem sentido

Postado em 12 de julho de 2011 às 19:11

Textos com parágrafos longos ou vocabulário recheado de termos novos pode ser um desafio e tanto para algumas pessoas, que podem ser portadoras de um distúrbio denominado dislexia. O problema anda em moda nas escolas e boa parte das crianças com algum tipo de dificuldade de leitura ganha esse rótulo, indiscriminadamente. Na prática, estudos recentes, capitaneados pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, mostraram que, de cada 100 alunos encaminhados ao médico com suspeita de dislexia, apenas 3 apresentam o distúrbio, de fato. De qualquer forma, o diagnóstico precoce é essencial para barrar um ciclo bem conhecido entre os que sofrem de dislexia: a criança tem dificuldade de aprender; não se arrisca; para de estudar e perde o interesse pela escola. Na sala de aula, o disléxico, diante de sua dificuldade em compreender um texto, pode apresentar diversos sintomas físicos de origem emocional, como dor de barriga, suar e sentir mal-estar, bem como apresentar sentimentos de incapacidade e menor valia.

            A dislexia é um distúrbio de linguagem sem causa definida, que traz dificuldades para ler, escrever e também soletrar. As pessoas acometidas por tal problema apresentam uma falha na decodificação da linguagem escrita. Isso significa que nem sempre identificam as letras de uma palavra e também podem não relacionar o som à letra. Os especialistas não sabem ao certo o que leva algumas pessoas a desenvolver isso. Existem pesquisas apontando que o problema pode ser herdado de pai para filho. Não tem cura, mas tem tratamento, ou seja, aprende-se a superar as dificuldades e a traças novas rotas cerebrais para entender melhor um texto. Vale ressaltar que tais dificuldades não possuem, necessariamente, relação com déficit intelectual. Mesmo assim, é comum a criança passar a ser inferiorizada, o que, em um futuro próximo, pode se traduzir em baixa estima. Existem, inclusive, adultos que são disléxicos e não sabem. E amargam frustrações – sociais e profissionais – ao longo da vida.

            Descobrir o problema precocemente é o ideal para evitar que os danos emocionais se instalem. Quanto mais cedo o problema for tratado, melhor será o rendimento escolar, profissional e até social da pessoa. O diagnóstico, porém, nem sempre é tão simples. Por volta dos 7 anos de idade acontece a alfabetização. Esse é um processo bem individual: algumas crianças apresentam maior facilidade em assimilar as palavras rapidamente e outras tropeçam até conseguir formá-la e interpretá-las corretamente. Além disso, problemas de visão, audição, déficits intelectuais, alterações de comportamento e métodos de ensino pouco estimulantes podem prejudicar o aprendizado do abecedário nessa fase.

            Os especialistas recomendam, em caso de suspeita de dislexia, uma avaliação cautelosa realizada por médicos e psicólogos. O tratamento também envolve esses profissionais e tem como objetivo ajudar a pessoa a traçar um novo caminho e, assim, ativar outras áreas cerebrais que dêem apoio para a leitura. No caso, esse objetivo seria formar a palavra e desenvolver a fluência no texto. A escola também tem papel importante em toda essa etapa, ajudando a identificar as falhas da criança durante a aprendizagem, ou ao longo do tratamento. Uma coisa é certa: com a ajuda adequada o disléxico pode driblar suas dificuldades e, finalmente, conseguir reunir as palavras de maneira que faça todo o sentido. 

 

Fonte: Adaptação do Informativo “Dislexia: quando as palavras não fazem sentido”, Página Einstein (www.einstein.br).

Texto sugerido por Ilana Souza - psicóloga do Espaço Vida & Saúde

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Dor nas Costas, Dor na Alma!

Postado em 06 de junho de 2011 às 09:26

A Organização Mundial de Saúde estima que 80% da população mundial apresente, pelo menos, um episódio de dor nas costas ao longo da vida. Segundo estudos atuais da Fundação Oswaldo Cruz, 36% dos adultos brasileiros são afetados por algum tipo de dorsalgia de forma crônica. Os efeitos sobre a qualidade de vida daqueles que enfrentam o problema são relevantes: o sofrimento não é apenas físico; também traz consequências psíquicas e sociais. Limitações na vida diária - desde a impossibilidade de fazer compras ou planejar o tempo livre até a incapacidade de trabalhar - agravam o problema e, muitas vezes, desencadeiam ansiedade e depressão.

            Se por um lado as dores na coluna sobrecarregam a psique, por outro, problemas psicológicos também podem desencadear as dores ou aumentar aquelas já existentes. Em geral, apenas cerca de 20% dos casos têm causas físicas evidentes. Nesses casos, costuma ser muito eficaz a consideração de fatores psíquicos. Estudos indicam que pacientes com dorsalgia frequentemente se queixam de outros problemas, principalmente psíquicos. Nesse sentido, observa-se que dores crônicas nas costas raramente representam um quadro isolado. Por isso, para compreender a fonte de dores crônicas na coluna e aliviá-las, não basta considerar apenas questões físicas, mas também fatores psicológicos.

            Não por acaso é a coluna vertebral que sustenta o corpo, e golpes emocionais também podem afetar esse equilíbrio, o que resulta em dor. Por isso, estudiosos defendem que o foco no tratamento da dor não se restrinja apenas ao físico e que as pessoas que sofrem com esse mal sejam acompanhadas por equipes multiprofissionais. No entanto, a efetivação desse tipo de tratamento ainda encontra alguns obstáculos. Isso porque as doenças psíquicas ou psicossomáticas ainda são consideradas uma espécie de tabu. A maioria dos pacientes apenas apresenta ao médico os sintomas físicos, poucos falam de seus desconfortos psíquicos, frequentemente por medo de não serem compreendidos ou de serem julgados ou criticados.

         Atualmente, sabe-se que dores de origem psíquica também se manifestam fisicamente e isso não pode ser ignorado. Se isso não for considerado pelos médicos, quase sempre se inicia para os afetados um longo caminho de sofrimentos. Em muitos casos, passam-se anos até que os motivos psíquicos em pacientes com dores sejam reconhecidos. Diante disso, observa-se falta de formação em psicossomática por parte dos profissionais, bem como receios e preconceitos dos profissionais e pacientes dificultam que estes falem abertamente sobre esses aspectos e iniciem um tratamento adequado. Por isso, quando há suspeita de dores associadas a questões psíquicas, é importante proceder com muita sensibilidade. É fundamental que, depois de esclarecer possíveis causas somáticas, também se busque entender os sentidos emocionais da dor crônica. Abordagens como atividade física moderada, relaxamento muscular, psicoterapia, adaptação ergonômica do local de trabalho costumam reduzir o problema de forma efetiva. Também é muito útil que as pessoas aprendam estratégias para lidar com o estresse. A inclusão de atividades relaxantes na rotina e o apoio emocional de amigos e parentes também costumam reduzir sintomas.

       É importante mostrar as pessoas que sofrem com esse tipo de dor que elas “(...) precisam e podem fazer algo benéfico por si mesmas e isso, para quem se sentia subjugado pela dor, significa não só se sentir fisicamente melhor, mas também ser capaz de retomar a autonomia, o que faz enorme diferença para a autoestima e a qualidade de vida de forma geral; viver passa a ser menos doloroso”, afirma a psicóloga Linda Hirschmann.

 

Fonte: Adaptação do texto “Dor nas Costas, Dor na Alma”, de Jasmin Andresh, revista Mente Cérebro, maio de 2011, Ano XVIII, nº 220.

Imagem: Internet

Texto sugerido por Ilana Souza (Psicóloga do Espaço Vida & Saúde)

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Diga NÃO à palmada!!!!!

Postado em 25 de abril de 2011 às 09:31

Ao longo dos anos, era comum fazer parte da educação dos filhos a punição corporal, seja por meio de palmadas, surras, beliscões ou outros castigos físicos. Recentemente, tal prática tem sido bastante questionada, em virtude do conhecimento público de diversos casos de grave violência física contra crianças e adolescentes, além dos avanços nos estudos das diversas áreas que envolvem esse público. Tamanho é o questionamento atual sobre essas práticas punitivas que foi proposto um projeto de lei cujo objetivo é a abolição da punição corporal doméstica. A psicóloga e professora Dalka Ferrari aponta para a existência de inúmeras pesquisas comprovando que a criança que cresce sendo castigada, disciplinada, com o uso da violência acaba desenvolvendo problemas emocionais futuros, comprovando, então, a correlação entre violência física e dificuldades emocionais.

            A referida psicóloga não é a favor do castigo, mesmo que este seja sem violência física. Ela defende a responsabilização, ou seja, após não agir corretamente, a criança necessita ser advertida e passar por alguma situação de reflexão. Na medida em que é retirada alguma recompensa, algo que a criança goste, é possível que ela adquira a percepção de seu erro e reflita sobre a conduta incorreta. Logo, ela poderá pensar no erroque cometeu sem que isso seja associado à força, à coerção, às palmadas, ao medo de apanhar. Ferrari afirma que a violência doméstica existe em todas as classes sociais e é um fenômeno multicausal, que possui raízes históricas e culturais, sendo um fator bastante presente nesses casos a falta de controle emocional da pessoa com seus próprios impulsos e a sua dificuldade em usar de meios não impulsivos, isto é, do diálogo e da comunicação para resolver as questões de conflito. Para a estudiosa, a palmada não é corretiva, uma vez que as pessoas guardam essa lembrança negativa, já que ninguém gosta de ser advertido fisicamente e ninguém tem o direito de espancar o outro nem bater. As pessoas devem cultivar o respeito e os pais devem e podem educar os filhos com base no exemplo, com suas atitudes, numa forma mais afetiva de passar a educação do que numa situação em que há punição.

            Em termos do projeto de lei proposto, Ferrari afirma que a finalidade da lei é pedagógica, com o intuito de orientar os pais no sentido de que a punição não resolve. Busca-se oferecer àqueles que aplicam castigos considerados violentos ou punem corporalmente programas de desenvolvimento do papel de pai e de mãe e do esclarecimento da questão do castigo e da violência. A criança e o adolescente precisam ser defendidos, sendo esta proteção tema de prioridade absoluta do ponto de vista legal. É dever não apenas da mãe e do pai, mas também do Estado e da comunidade a proteção da criança e do adolescente. Nesse sentido, eles passam a ser responsabilidade não só da família, mas de toda a sociedade.

 

Fonte: Texto adaptado da entrevista “A punição não constrói”, com a psicóloga Dalka Ferrari para a Revista Psicologia Brasil, ano 3, nº 26.  

 

Texto sugerido por Ilana Souza (psicóloga do Espaço Vida & Saúde).

 

 

 

Você dá limites ao seu filho?

Postado em 06 de abril de 2011 às 11:33

A criança falando dos limites

Laura Monte Serrat Barbosa

              Depois de ser gerado, cresci numa bolsa, dentro de minha mãe. Nós dois construímos um cordão que nos ligava. Eu não percebia que aquele espaço era tão pequeno. Tinha a impressão de que o universo era só meu.

              Conforme fui crescendo, fui sentindo os limites. Eu me mexia, e minha mãe logo percebia. A minha vontade era tomar conta de todo o seu corpo. Mas eu não podia, porque eu não era ela. Era um ser distinto, para o qual foi reservada somente aquela bolsa.

            Quando nasci, o espaço aumentou. Confesso que me senti um pouco perdido e comecei a chorar. Embora eu estivesse num espaço muito maior do que uma bolsa, logo senti os limites desse "espação". Eu teria que aprender a respirar e, por isso, chorei. Enquanto chorava, meus pulmões começavam a aprender o que teriam de fazer para deixar o ar entrar. Minha mãe agora não respirava mais por mim. Que saudade daquela bolsa! Essa saudade não durou muito, pois logo o "espação" passou a ser delimitado. Puseram-me no colo, num berço, dentro de roupas, e comecei a me sentir mais seguro.

            Dali a pouco, percebi que minha mãe não se alimentava mais por nós dois, e novamente coloquei o "chorador" para funcionar, pois o meu corpo me avisava que eu precisava me virar. A partir daí vieram os horários, e eu comecei a aprender que nem tudo é como a gente quer, na hora que quer e na quantidade que quer.

            Fui crescendo, apesar de todos esses limites, e continuei achando que o espaço grande e eu éramos a mesma coisa. Então, fui aprendendo a resistir às limitações que a vida começava a me impor: não queria comer na hora de comer, queria comer somente doces, não queria tomar banho, não deixava cortarem minhas unhas, queria o brinquedo maior e mais colorido e, se desse, um monte desse brinquedo de uma só vez.

            Tinha a sensação de que eu controlava tudo. Meus pais, no entanto, não deixavam o controle na minha mão. Isso me deu um certo alívio, já que tenho um amiguinho que ficava com o controle e sofria muito, pois seu "espação" foi ficando cada vez maior. Ele tinha tudo o que queria, mas tinha um "baita" medo de, por ser tão pequenininho, não dar conta daquela imensidão.

            Eu chorava quando os meus pais me ensinavam, mas, do mesmo jeito que acontecia no meu bercinho, o choro me ajudava a entender mais um pouquinho da vida.

            Mais velho um pouco, não precisava mais chorar constantemente, pois aprendi a falar e logo usava essa habilidade para persuadir os meus pais. Mas os danados não se deixavam enrolar e iam a cada dia mostrando que os limites nos ajudam a nos tornarmos humanos.

            Meu amiguinho, aquele de quem falei agora há pouco, foi ficando cada vez mais "bicho". Ele gritava muito, jogava-se no chão, chorava, batia, dava chutes e, no final, conseguia romper os tênues limites que lhe eram impostos e continuava com o controle nas mãos. As pessoas não gostavam muito dele e começaram a chamá-lo por uns nomes difíceis, mas que significavam que ele não estava crescendo: egoísta! panaca! bobalhão! chato! insuportável! Cada vez que ele ouvia uma palavra dessas, achava que isso é que era o correto e passava a fazer mais malcriações para fazer jus ao rótulo que lhe estavam dando. Coitado! Com tanta coisa e sem paz. À noite, dormia agitado. Acho que também chutava os sonhos. Durante o dia, não enxergava um passo diante do nariz.

            Eu aprendi que, para vermos além de nós mesmos, é preciso nos depararmos com obstáculos, pois eles nos permitem buscar saídas, olhar para os lados, para frente e para trás. O que muita gente acha que é ruim, como um "não" na hora que queremos muito alguma coisa, é o que vai manter acesa a chama do desejo e, certamente, nos ajudar a encontrar formas mais adequadas de obtermos o que queremos. Esse esforço que fazemos para romper barreiras é o que vai provocando nosso crescimento emocional e cognitivo.

            Acho que é por isso que eu estou aprendendo tão rapidamente as coisas na escola. Meus pais me ensinaram que o "não" é algo que faz parte de nossa vida. Já o meu amiguinho está tendo muitas dificuldades. Ele não aceita as regras existentes, pois sua vida até este momento foi feita somente de satisfações imediatas.
Fico pensando que quem tem tudo o que quer, na hora que quer, apaga a chama do desejo, não precisa fazer nenhum esforço e, por isso, não cresce.

            Já imaginaram alguém sem desejo? Eu penso que esse alguém se torna insaciável, pois não precisa buscar, esperar. Está sempre engolindo as coisas como elas vêm. E quem consegue aprender, alimentar-se, engolindo sem mastigar, sem digerir, sem selecionar o que é bom e precisa permanecer daquilo que se pode deixar de lado?

            Agora que estou bem maior entendo que limites na dose certa não nos fazem sofrer. Pelo contrário, permitem que a gente vá aprendendo a lutar por aquilo que deseja, a ficar forte para enfrentar as dificuldades e a contra-argumentar para que os limites não se tornem rígidos demais e impossíveis de serem flexibilizados caso a gente precise.

            Por isso, pais de todo o mundo, não deixem de colocar limites nos seus filhos, pois é assim que vocês estarão possibilitando que eles se tornem verdadeiros cidadãos e seres mais humanos.

 

Laura Monte Serrat é psicopedagoga, professora de cursos
de pós-graduação em Psicopedagogia e assessora de
instituições de ensino em diversas cidades brasileiras.
E-mail:
lauramonteserrat@bol.com.br

 

Fonte: Site Educacional                                                                                   Imagem: Internet

 

Texto sugerido por Mariana Simonetti (psicóloga do Espaço Vida & Saúde)

 

Afinal, o que é uma família?

Postado em 23 de fevereiro de 2011 às 11:00

Definir o que é uma família é uma tarefa bastante complexa, pois ela vai muito além da ideia de um simples agrupamento de pessoas. A família é uma instituição social rica e dinâmica em termos de relações e sua conceituação é mutável, por ser a família uma construção histórica e social, que sofre influência de diversos fatores, como a cultura de cada época, o local em que se vive, as conquistas sociais de cada geração. Por isso, é importante refletir sobre a família de forma mais ampla e diversificada, mas não menos complexa e dinâmica, situada dentro de um determinado momento histórico e contexto social.  

            Tradicionalmente, família é caracterizada como um “grupo social básico, formado por pai, mãe e filhos (s); pessoas ligadas entre si pelo casamento ou qualquer parentesco” (Dicionário Houaiss). Esta definição privilegia a família nuclear, que é caracterizada pela existência do pai, da mãe e dos filhos de primeiro casamento; os critérios biológicos de parentesco e a existência de uma instituição formal - o casamento - como formadora de uma família.

No entanto, percebemos que, atualmente, a família tem sofrido diversas alterações que exigem um olhar mais amplo sobre essa questão e uma reflexão mais profunda sobre o que é uma família. O que vemos no dia a dia e que é cada vez mais comum são famílias onde convivem vários parentes, irmãos, meio-irmãos, mulher do pai, filhos do marido da mãe, e tais configurações trazem diversos desafios comuns a crianças, jovens e adultos de nosso tempo. As configurações familiares estão mudando ou, pelo menos, multiplicando-se em famílias separadas, recasadas, monoparentais, socioafetivas e homoafetivas. Esses novos formatos de família nos leva a repassar o conceito tradicional desta, abrangendo a complexidade e diversidade das relações familiares, que hoje se apresenta de diferentes novos formatos.

Para a psicóloga carioca Terezinha Fères-Carneiro, a família recasada tem características próprias e não deve ser tomada como família nuclear recriada, uma vez que “Os limites dos subsistemas familiares são mais permeáveis, a autoridade paterna e materna é dividida com outros membros da família, assim como os encargos financeiros. Há uma complexidade maior na constituição familiar”. Ela afirma que “(...) esses núcleos familiares são tão capazes de promover saúde quanto às famílias de primeiro casamento. A competência das famílias não depende do fato de serem casadas, separadas ou recasadas, mas da qualidade das relações estabelecidas entre seus membros”.

Diante das novas configurações familiares, ela aponta a possiblidade de compreender a família como um processo de passagem entre gerações. Segundo esta visão, a família afasta-se do critério biológico, dando ênfase a dimensão psicoafetiva, independente de sua configuração. “A diversificação da estrutura familiar pode ser assimilada à medida que o processo de transmissão de valores e de crenças familiares se mantém por meio das solidariedades intergeracionais”. Ela é um espaço privilegiado na construção de relacionamentos afetivos, que irão exigir respeito, tolerância, compreensão e companheirismo. Portanto, pensar a família como um agrupamento de pessoas que possuem parentesco biológico é algo bastante restrito e limitado, que não atende a diversidade e complexidade das relações humanas, especialmente no contexto atual. É fundamental repensar e rever velhos conceitos, para que seja possível construir famílias cada vez mais felizes, harmônicas, tolerantes e abertas à diversidade.

 

O que vcs acham dessas novas configurações familiares e desse novo conceito de família?

Para aqueles que vivenciam essas novas configurações, compartilhem suas experiências.

 

Fonte: adaptado do texto “Novas Configurações Familiares e os desafios para a Psicologia”, do Jornal do Federal – Conselho Federal de Psicologia – Ano XXII nº 99.

Imagem: Internet

tags: familia

É brincadeira ou bullying?

Postado em 06 de dezembro de 2010 às 08:41

Bullying é um tema que vem se disseminando e se tornando cada vez mais conhecido pela sociedade e reconhecido como um problema sério que permeia o cenário social da infância e adolescência em contexto escolar.

Pode parecer uma simples “brincadeira de mau gosto”, mas o bullying refere-se a atos de violência física ou psicológica que acontecem sistematicamente e sem motivação aparente e cuja vítima está em posição de desvantagem em relação ao agressor (Tavares, 2010).

Considerado uma forma de abuso, atitudes como colocar apelidos, ofender, excluir, discriminar, perseguir, assediar, amedrontar, dominar, agredir, bater, ferir, roubar, quebrar pertences, entre outras, são modos de expressão do bullying, quando estas se manifestam de maneira intencional e recorrente. O agressor provoca sua vítima sobremaneira quando esta não está emocionalmente apta a se defender. A assimetria de forças é uma forte característica do bullying.

 Estudos apontam que os agressores freqüentemente são crianças ou adolescentes que vivenciam pouca afetividade no lar e convivem com modelos de comportamento agressivo dentro da própria família.As vítimas, por outro lado, possuem um perfil extremamente frágil, passivo e reservado. No entanto, é importante advertir que, diante da complexidade de ser do humano, a tentativa de se traçar um perfil padrão pode ser um caminho perigoso, que nos leve puramente à construção de rótulos. Nesse sentido, é necessário avaliar com cautela cada caso.

Quando a vítima não fala que vem sofrendo abuso, torna-se difícil identificar um caso de bullying. Cabe aos responsáveis e às escolas estarem atentos e não negligenciar aquilo que parece ser “brincadeira de criança”. Ao perceber algum movimento suspeito, investigar se suas crianças ou adolescentes estão envolvidos em situação de bullying é a melhor postura a assumir.

É evidente que o bullying não é um fenômeno exclusivamente do século atual, ele já vem sendo estudado desde a década de 80. No entanto, a consciência em relação aos danos psicológicos que esta forma de violência pode causar na vida de alguém, vem fortalecendo críticas que chegam a alcançar as políticas públicas de todo o panorama mundial. Exemplo disso é a campanha que os EUA vêm mobilizando, por meio da divulgação de astros de Hollywood, para encorajar os estudantes a denunciar e se defender do bullying

Apesar de se ter a escola como palco principal, as ocorrências de bulling ultrapassam os muros desta instituição. Elepode acontecer também em outros ambientes sociais, inclusive dentro da própria família, entre irmãos, por exemplo. A internet também vem se tornando veículo de manifestação do bullying, o cyberbullying, sendo, então, imprescindível que os pais fiquem atentos principalmente às chamadas redes de relacionamento, tais como orkut, facebook, twitter, etc., que são bastante acessadas pela população brasileira em idade escolar.

Fonte: Lia Gabdem e Ilana Souza - Psicólogas do Espaço Vida & Saúde.

Imagem: Internet

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